Kaapora Design: artesanato sustentável com propósito social

26/10/2018

Um objeto feito a mão carrega horas de trabalho de alguém e um pouco da energia do ambiente em que ele nasceu. Chegar na Reserva Botânica Águas Claras em Gaviões - Silva Jardim/RJ, onde fica a Kaapora Design, é entrar em outro ritmo de vida. No começo dos 35 quilômetros de estrada de chão que nos leva até lá, o telefone já te desconecta de tudo. Não funciona nem para ligação, quanto mais para a internet. É a hora que a gente faz uma imersão,respira ar limpo, ouve os cantos dos passarinhos, admira a beleza da estrada e dos bichos pelo caminho.

A energia boa da natureza instantaneamente faz efeito. O cansaço de dias fica mais leve, a mente sempre preocupada com o que acontece no mundo exterior se prende ao tempo presente e vive cada segundo de atenção plena. E é essa energia que um produto da Kaapora carrega.

Fuxixões e mesa de canto com luminária de VegPlac de firbra natural da Kaapora Design
Luminária com VegPlac de fibra natural da pupunha

Se a história parasse por aí já era boa. Mas tem muito mais…

A Reserva Botânica

A propriedade rural Reserva Botânica é uma RPPN - Reserva Particular do patrimônio Natural. Isso significa que ela é uma unidade de conservação ambiental por vontade de seus donos. Eles foram pioneiros na plantação de palmito pupunha orgânico.

“Aqui não se cria bichos para venda, somente o cultivo de orgânicos e áreas de preservação ambiental.” Mônica Castedo

Fazenda da Reserva Botânica, pupunheira do lado esquerdo, cavalo, casa de fazenda, montanha e árvores
Vista do Ateliê

As Mulheres da Reserva Botânica

Quando a família da Cecília Freitas chegou na região só os homens eram empregados na zona rural. A Reserva Botânica foi a primeira assinar a carteira das mulheres e junto dar a elas flexibilidade de turno para que pudessem cuidar dos filhos.

“Elas eram empregadas em meio expediente. Trabalhavam limpando o matinho da plantação, das ruas da plantação de pupunha e quando a gente chegou [Kaapora Design], tivemos a oportunidade de pegar as  três mais antigas: Dona Ita, Dona Maria e a Ciléia - que não está mais aqui com agente hoje porque já  tá aposentada - para estarem conosco durante a pesquisa.” Mônica

As mulheres da Reserva Botanica com Mônica e Cecília
Mulheres da Reserva Botânica que trabalham com Kaapora Design

A pesquisa com a fibra da pupunha

Em 2008, Mônica trabalhava em um coletivo de tecelagem em Rio Bonito e tinha bastante experiência com fibra de banana. Cecília tinha bastante resíduos da produção de palmito de pupunha na fazenda. Foi nesse contexto que elas se conheceram e começaram a pesquisar o aproveitamento da fibra da pupunha. Com os próprios recursos e muita vontade de fazer acontecer elas deram o passo inicial.

“De forma muito simples, com um fogãozinho feito de tijolo, uma panela e um tronquinho que agente cortava os troncos da pupunha, um facão e assim a gente começou ali a tratar primeiramente a fibra. A primeira lição que elas [as mulheres da Reserva Botânica] aprenderam foi a pegar a pupunha e transformar em fibra. Em paralelo a isso a gente começou a estudar de que maneira aquele material poderia se transformar numa placa de base vegetal, similar a um papel artesanal.” Mônica

Duas artesãs retiram a fibra da pupunheira que dará vida a VegPlac
Artesãs retirando a fibra da pupunha

Elas não queriam usar apara de gráfica e cola que são comuns nesses processos. Foram quatro anos de testes com ajuda de parceiros como o Bruno Temer da Matéria Brasil e de mestrandos e doutorandos do IMA – Instituto de Macromoléculas do Fundão. Com muito empenho, pesquisa e melhorias na placa, nasceu a VegPlac.

“Um dado importante é que em dois anos de trabalho mais ou menos, com muita dedicação das mulheres e nossa, a gente percebeu que durante a pesquisa nós já estávamos capacitando essas mulheres para uma nova atividade. Que além das três mais antigas que foram as primeiras a estarem conosco na pesquisa, nós percebemos que na necessidade do crescimento, nós tínhamos as filhas chegando e posteriormente as netas para estarem conosco.” Mônica

Do trabalho rural ao trabalho manual

Nas horas vagas Mônica e Cecília começaram a envolver as Mulheres da Reserva Botânica em oficinas de manualidades. As mãos eram pesadas da foice e da enxada, tinham um peso além do que a delicadeza do trabalho com a placa exigia.

“A oficinas envolviam as filhas e as netas. A gente foi agregando as mulheres, todas essas gerações para que quando nós tivéssemos um produto finalizado, nós tivéssemos também uma mão de obra qualificada e pronta para atuar.” Mônica

A VegPlac

O fruto de todos esses anos de trabalho e pesquisa é o Vegplac. Uma lâmina inovadora, 100% biodegradável, de base vegetal, que é feita principalmente de pupunha. O processo produtivo é todo artesanal e limpo, contribuindo para a preservação do manancial hídrico e da floresta Atlântica que as cerca. 

Testes com corantes foram feitos, mas descontinuados justamente para não perder esse caráter sustentável tão alinhado com o nascimento do VegPlac. Os corantes naturais são um processo em construção e conta com parceiros como a Mancha. As texturas são feitas a partir de plantas e flores que nascem na fazenda ou de técnicas de upcycling para aproveitar tecidos reaproveitados da indústria têxtil.

Mesa de canto com livros, plantas e luminárias feitas de VegPlac pelas Mulheres da Reserva Botânica para a linha Home da Dress To feita em parceria com a Rede Asta
Luminária da Reserva Botânica para a Linha Home da Dress To em parceria com a Rede Asta

A Kaapora Design

Construída a partir de ideais de vida, de sustentabilidade, de sonhos...

Mônica e Cecília foram percebendo ao longo da pesquisa que a “Kaapora” era um sonho viável, além de placas, elas queriam dar vida e utilidade a elas.  Kaapora significa o que vem ou quem vem do mato. Elas escolheram o nome de uma lista de palavras em tupi guarani que Els Lagrou, amiga delas que é linguista, antropóloga e trabalha com etnias indígenas, sugeriu.

Em 2012, criaram os primeiro produtos feitos com VegPlac para uma feira em Santa Tereza no Rio de Janeiro.

“Ah eu queria fazer luminária, falei para Ciça. Tenho a maior paixão por luminárias, queria fazer luminária” e ela me perguntou “Como é que a gente vai fazer luminária?” “Ah! Vamos pegar um tubo de PVC, a gente corta uns aros, bota uma madeirinha, fura, prega…” E aí a gente criou o primeiro par de aros das luminárias e lançamos uma coleção que era toda de banana perfurada.” Mônica

Em paralelo criaram imãs de geladeira, decoração para Natal, marcadores de livros, fivelas de cabelo, brincos, descanso de panela, porta-copos e muitos outros objetos pequenos. O bazar foi um sucesso de vendas e logo em seguida seus produtos entraram também nos catálogos de venda direta da Rede Asta.

“Quando a gente começou a falar da Kaapora, a gente percebeu que não dava para falar só da Kaapora, que falar da Kaapora era falar das Mulheres da Reserva Botânica e que isso tudo se mistura o tempo inteiro. Ninguém aqui trabalhou sozinho para construir isso. É uma história que está totalmente interligada porque passa pela questão da sustentabilidade o tempo inteiro. Por esse olhar da Reserva Botânica, pela filosofia de preservação, por um plantio orgânico, por mulheres que foram sendo trazidas e olhadas com respeito, que se dispuseram a aprender, que tiveram esse desejo de mudar de área, que entenderam como positivo para suas vidas, para as vidas dos seus filhos.” Mônica